Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

power

vi num documentário gringo:

"Eu avalio os homens pela força. E força tem a ver com tamanho. Por isso instintivamente escolho homens fortes por trás de carcaças fracas, diminutas. Mas na hora de funcionar, a força sempre move. Pelo ar, seguram nossas mãos e parecem ter cinco a mais que nós".

Fulana de tal, uma norueguese safada pra cacete.



como diria a Ju, player, player!



frase do dia
"de dia lágrimas e à noite, amantes", moska

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

anunciação (mais uma noite carioca)

.
.
Estou achando o máximo sentar para escrever sobre os fatos da vida às cinco e quarenta e sete da manhã. Impressionante como a manhã começa cedo e a gente só lembra de vez em quando… hoje a noite abria a boca e soltava um bafo de 31 graus.

Eu andava em uma van, conversando com paulistas sobre como os nomes das ruas lá em São Paulo são muito italianos. Mas se isso acontecesse aqui no Rio, lembraria Scarface. O carioca é meio Robert de Niro nesse filme. No Rio é assim, eles acham que estão se dando bem, mas sempre se fodem no final, mesmo sem saber.

A noite se estendeu como tantas outras e eu voltei para casa num táxi, esses veículos de grande valia nas horas noturnas e que abrigam peças raras; como a que eu conheci hoje. Não me lembro o nome dele, mas era um senhor nascido na Paraíba. Amanhecia, e ele me pediu para ouvir os sabiás cantando anunciando o sol. Achei tão bonito… é saudade. Assim como a minha.
.
.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

gaijin sem gogó


Para Walmir, com amor...




Quem chega em Inajá logo percebe que a cidade nunca se apaga, está em constante estado de Natal. Lá nasceu Graciliano, o Graci, fruto de um município no norte do Paraná, que abriga exatamente 3.055 habitantes. Com 14 dias de nascido, Graci foi morar em Manancial, pois o pai vivia da pesca. Teve uma infância espoleta, entardeceres quentes na beira do rio, descalço, na companhia do pai, todos os meninos que crescem junto aos pais são felizes, peixe no almoço e na janta, dentes brancos e pele de gente da cidade. Ao completar 15 anos, como um telegrama, seu Jurandir manda o filho para Nova Esperança.

Gado novo na cidade, as meninas se encostavam lixando as unhas nas portas das lojinhas para verem Graciliano passar. Em uma semana, conheceu e se apaixonou perdidamente por uma japonesa. Sonhava com ela, seu olhar lânguido, e, à noite, ao deitar-se, penava para decorar os galanteios que faria à moça.

Desde menino, Graci não puxou o pai. Na escola, era caçoado pelo jeito feminino, pela pele macia e pela delicada inteligência. Mais tarde, veio a quase psicopatia do gogó, ou melhor, a falta dele. Logo que chegou em Nova Esperança, arranjou emprego como entregador em uma farmácia. O braço direito do farmacêutico, chamado Akira, ficou sabendo de sua paixão pela japonesa e riu alto, tão alto, que acordou o felino que dormia perto da lixeira de seringas usadas.

Na festa da colheita, encontro marcado, sorrisos de lado, viraram amigos por um dia. Como nas tardes felizes dos casais de filmes românticos, fizeram toda a rota passeio de barco-deitar na grama e olhar o céu-rolando e caindo em cima de você, mas sem beijo-olhos nos olhos-flores para ti-o tempo está acabando... Na volta para casa, no fusca do amigo mais velho, o breu do banco de trás, mão com dedos carinhosos no ombro e: o beijo. O beijo que saiu pela janelinha do fusca e foi dançar com o vento frio da madrugada, passando pelo voar bambo da borboleta de manhã e entrou no ouvido de Akira como uma espada ninja.

Agora, a nissei Ana era o seu sonho realizado. Vitória do gaijin sem gogó sobre o ninja Akira derrotado. O pouco tempo em que ficaram juntos permanece, ainda hoje, como lição. Não se ri dos sonhos alheios. Se rirem dos seus é motivo, apenas, para realizá-los.





Hoje, na cidade grande, Doutor Graciliano, 43 anos, farmacêutico, sabe o que é o amor, mas não tem um. Ele continua a sonhar...
.
.
.

domingo, 5 de agosto de 2007

cheiro de tomilho



Na mesma noite, Alvelina saiu de sua cidade e chegou a outra. Outro Estado, outro estado de espírito, não tão santo quanto àquele em que vivia. O lugar era frio como um inverno constante, e as bebidas típicas eram feitas com a água pura que descia das cachoeiras. Lá se hospedou na casa do primo distante do lendário Obelix, o nem tão grande assim, Chamonix. A casinha era pequena, como se tivesse saído de uma história infantil, daquelas que acontecem no meio das florestas. Os móveis eram de madeira maciça e havia buracos nas janelas e maçanetas em forma de coração.

Estava reservado para Alvelina o quarto 314, a penúltima porta no final do corredor. Deitou-se coberta por uma manta tão peluda quanto um urso e esperou a chegada de Eugênio. No cair da noite, ele chegou.

O silêncio não incomodava. Aliás, era costume, pois Eugênio não era mesmo de muitas palavras - faladas. Eugênio era da família Andrade e viajava muito a trabalho. Desde que era toquinho, vendo o tio trabalhar nas apresentações da cidade, aprendeu a ligar microfones e caixas de som. Aos 14, saiu da barra do vestido de dona Dione para o distrito de São João dos Calçados em busca do primeiro trabalho. E, ao longo dos anos, todas as horas que passou a ver estradas, noites e o azul escuro fizeram com que falasse menos. De quando acordava até o meio dia, só proferia um bom dia, Alvinha antes de tomar meia xícara de café amargo.

Às nove da manhã, as borboletas tigradas dançavam balé russo de um lado para o outro, quando Alvelina e Eugênio partiram para a próxima cidade. A caravana do circo Havengar passaria às oito e quarenta e cinco da noite. Descendo a serra, as árvores respirando, a poeira levitando, as formigas passeando e a senhora na janela pensando eram sensíveis aos ouvidos:

- Aparentemente este ano não preciso podar o tomilho. Todo dia vejo pela janela uns pardais arrancando raminhos de tomilho. Vai ficar uma casinha tão perfumada!


terça-feira, 10 de julho de 2007

os de antropologia são meus



Hoje era o dia. Era o dia de pegar as suas coisas e de tirar o fio desencapado da tomada. Clarissa chegou por volta das dez da noite, e, assim que entrou na Curva do Saldanha, o coração ficou pequeno. Agora era o meio do caminho e ela seguiria em frente. A rua, as esquinas e os prédios que antes abriam passagem para a pressa da chegada e para a ansiedade, agora se multiplicavam para deixar o tempo passar.

Será que ele está em casa?, pensava. Não importava saber, já que estava a uma praça da casa dele. Como de costume, buzinou para avisar que estava lá embaixo. A vira-latas Brigitte logo se atiçou no portão. Subiu lentamente as escadas, circundadas das plantas que plantara; agora grandes. Ficou orgulhosa do tomate-cereja samambaia, que logo iria avermelhar.

Sem palavras, o som era de uma música estranha, nova. No cinzeiro, metade de um charuto e as guimbas de sempre. Objetos antigos e livros espalhados pela sala. Clarissa começou a escolher os que queria. Há um mês, os livros haviam sido levados da famosa biblioteca da família Ramalhete, e agora, era a hora da partilha.

- Posso pegar este? – pergunta Clarissa.
- Pode levar o que você quiser.

Guimarães Rosa, Drummond, Simone de Beauvoir, Augusto dos Anjos, Elmo Elton, Nelson Werneck Sodré, Gilberto Freyre, Dines, Machado, Maupassant, Vinícius, Proust, dentre dicionários e livros de conversação em francês e italiano. O livro espanhol sobre orquídeas brasileiras era mais bonito que uma penteadeira do século XVIII. Ela gostou do livro sobre a história do Jazz, mas sabia que ele não iria deixar.

- E este, pode?
- Não, os de antropologia são meus – disse ele.

Disfarçadamente andou para dentro da casa. O pé direito alto faria falta de tanto ar, os quadros alegres que a irmã copiava de Miró, as casinhas coloridas de cerâmica na parede da porta de entrada, o tapete, o jarro quebrado. A gata estava no cio. A geladeira com os vidros de água vazios. O queijo e a salada no mesmo lugar. No banheiro, o chuveiro que antes era bastidor para uma noite sem fim, agora era um quadrado de azulejos azuis. Triste como os azulejos azuis.

Mais alguns minutos de poeira e mãos sujas, até a descida para o carro. Depois da última sacola, ele a chamou para fumar o último baseado. Ela sabia que não era. Ainda precisava voltar para pegar o violão e as xícaras de chá de maçã.
.
.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

anos 30

andando e procurando consolo em paredes e muros; sempre fazia isso quando não conseguia lhe dizer a verdade. foi nesse dia que vi aquele homem... de terno lilás, óculos grosseiros e cabelos besuntados de brilhantina. que pessoa era aquela? andando na rua, todo dia, sem perceber essas figuraças, era chato ter que sair de casa para ir à padaria ou em qualquer meia-porta comprar cigarro.

aquele senhor me parou, seu olhar me parou. e no centro do Centro da cidade, fiquei de frente para a paz do grito. sem ação diferente, acendi um cigarro. fizemos um pequeno pacto secreto e ele acenou com a mão. é minha forma de responder aos deuses, e acho que a dele também. são pequenos acordos, jogos silenciosos.

voltei para casa com uma perturbação incomum, uma daquelas vontades que, na verdade, não podem ser vontades! (odeio quando isso acontece, odeio não ter o controle). talvez até gosto, me deixo levar. fritei um ovo e botei no pão. fui até a janela. sempre que fazia isso, pensava: quem é a paisagem? a vista ou eu? depende do ponto de vista. achava esse meu questionamento-afirmação fantástico.

não queria ficar em casa, queria outro ponto de vista. saí de novo. o senhor do ternocorincomum estava na mesma calçada e eu não sabia o que fazer, com aquele medinho de adolescente de passar perto do galã da escola. acendi outro cigarro. meu galã dos anos 30 estava sem óculos e isso me deixou com mais receio. tinha que ir, não queria voltar para casa. tive uma idéia!; brilhante, por sinal. passei na floricultura do outro lado da rua e comprei uma samambaia, daquelas bem cabeludas. (...)

pausa:
existem pessoas que saem de casa a pé para comprar samambaias?

(...) e, como uma planta ambulante, passei por ele.

todo momento não é sempre crucial e irrecuperável? feito. entre as folhas, o homem me olhava. sem sexo desde 1972, mesmo tempo em que carregava um palito no canto da boca, me mostrou sua vontade como a luz da graça do encontro. meu galã dos anos 30. tudo isso porque fui comprar cigarro.